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Por quê Memoriô

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Memória e ancestralidade

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TULDSJ

17. Mais um desterro?

2025

Me disseram que essa casa ia cair,
mas ela é madeira que não dá cupim.

Ponto cantado de Exu

Em 2022, os proprietários do imóvel exigiram de nós a compra ou saída desse espaço. Afirmaram que estavam colocando o imóvel à venda e que já existiria uma suposta compradora interessada. Coincidência, ou não, foi logo depois de termos, pela primeira vez, identificado a casa como um espaço de terreiro, afixando uma faixa com os dizeres: Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge: “Amor, caridade e evolução”. Como sempre aconteceu na história do Brasil, a branquitude chegou e reivindicou os espaços quando se valorizaram, quando passaram a ter interesse monetário e mandaram, para longe, quem cuida do chão. Os donos do chão, neste país, sempre foram os Caboclos, mas eles sempre têm que lutar para permanecer.

Fachada da Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge, em 2022.

Foram feitas reuniões entre a comunidade de filhas e filhos-de-santo. Ali, entendemos que o local foi escolhido por nossos guias, que existem fundamentos espirituais plantados, e que levaram tempo para crescer e ganhar força, e que a localização em área central facilita que as pessoas necessitadas possam chegar até nós. Teve quem dissesse que o melhor seria sairmos dali – que espaço “certo” para terreiro é nas periferias, mas defendemos que terreiros não devem ser “marginalizados”, como sempre foram postos nos subúrbios urbanos, isto é, jogados para as margens! Devem estar, também, nos centros das grandes cidades, como estão as sedes das religiões cristãs.

Assim, num ato político, de solidariedade e de trabalho em conjunto, conseguimos levantar parte do valor necessário, com recursos próprios dos médiuns, e iniciamos o contrato de compra e venda. Porém, essa história ainda não teve um desfecho. Apesar de termos cumprido com todas as obrigações previstas no contrato, os proprietários têm se recusado a proceder com atos necessários à regularização do imóvel e prosseguimento da compra, para nos forçar a desfazer a negociação e desocupar o imóvel.

A pergunta é: onde podemos permanecer? Que espaços as cidades permitem que sejam ocupados pelos terreiros? Por que não são os espaços nobres e centrais, como os das igrejas católicas? Por que não podem se identificar livremente nas comunidades, como qualquer igreja cristã?

Enfrentando o colonialismo e o fanatismo cristão, o terreiro Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge resiste, com Mãe Lia, Pai Clayton, suas filhas e seus filhos-de-santo. Enfrentamos as demandas de aniquilação das diferenças; de destruição do que não está fundamentado na perspectiva mercantilista; de homogeneização das espiritualidades sob as ordens das escrituras e das estruturas engessadas. Somos floresta onde se quer pasto, somos Mata Atlântica – com contribuições de Caatinga e Cerrado – onde se quer monocultura de eucalipto, somos curimba e maracá onde ninguém aceita ruídos, a não ser os dos bares ou das igrejas neopentecostais. Resistimos, existimos e mantemos as nossas raízes e tradições ancestres – não da Europa colonizadora, ou dos Estados Unidos explorador da América Latina, mas de um Brasil mestiço, sincrético, em que as diversidades, em vez de entrarem em conflitos que geram apagamento, são bem-vindas e podem conviver e confluir.

Há décadas, nós e nossos ancestrais cuidamos deste chão, e reivindicamos o direito de nele permanecer.

Nossos trabalhos, com assistência pública, acontecem a cada quinze dias, sempre aos sábados. Giras especiais também acontecem durante dias da semana específicos. Consulte nossa agenda e visite-nos.

​Rua: Santa Rosa, nº 53, Bairro Santa Rosa de Lima.
Teixeira de Freitas – BA.

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