Peço licença de Pai e Mãe pra mim poder trabalhar…

Gabriela Andrade da Silva, vestida com uniforme de trabalho do terreiro, na mata. Ela é coordenadora do projeto Memoriô, filha de santo do terreiro Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge e Professora Doutora do curso de Psicologia da Universidade Federal do Sul da Bahia, campus Paulo Freire (Teixeira de Freitas – BA).
Foto: Daniel Sousa, 2024.
O Cruzeiro do Sul está no céu,
Ponto cantado trazido pelo Caboclo Rompe Mato, em janeiro de 2025
na terra, a encruzilhada,
seu Rompe Mato, vencedor de guerra,
seu Rompe Mato, vencedor de batalha.
Nenhum povo pode ser esquecido! O passado não pode ser esquecido! A memória é muito importante, porque é a força de um povo!
Caboclo Rompe Mato, 2025
O tempo não existe! Quando passar na encruzilhada, não se esqueça de olhar para trás. Ocêis têm que olhar pra todo mundo que ficou atrás, que veio antes docêis. Tem que olhar pras raízes, pra quem pisou antes nesse chão! Tem que fazer o lembrador de quem veio antes, porque essa é a força desse chão! Só pode trabalhar nesse chão se tiver o conhecedor desse chão, do que veio antes, das pessoas que vieram antes. Só olhando pro passado é que o chão tem força. A avó do meu aparelho veio antes e abriu o caminho pra mãe dele, e pra ele trabalhar, e pra todos ocêis trabalhar! E onde está a avozinha, agora? A avozinha está aqui! A água que passou nesse rio, lá atrás, continua passando. As lágrimas que chorou lá atrás, continua chorando. O tempo não existe! O passado está aqui, trabalhando com ocêis, e é por isso que essa casa, que esse chão, tem força! Quem dá força é os que vieram antes docêis! Tem que olhar pra trás, pra encruzilhada e pra mata que ficou pra trás.
Exu Tranca Ruas das Almas, 2025
Esse chão também quer falar!
Exu Tranca Ruas das Almas, 2025
Essas foram algumas das palavras que anunciaram o início do trabalho de memoriar a Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge. Numa comunidade de Terreiro, é óbvio que eu não falo sozinha. Nós, Filhas e Filhos de Santo, falamos por muitas e muitos, falamos pelo chão. Este projeto, nascido a partir dos pedidos de nossos guias, vem materializar e dar forma, no nosso plano, às raízes espirituais que são a força de nosso terreiro: a ancestralidade.
Aqui, me coloco, numa das encruzilhadas da vida, num duplo papel: na minha trajetória como professora e pesquisadora, tive a bonita oportunidade de materializar este projeto de extensão, em intenso contato com uma comunidade tradicional, liderada por uma Mãe-de-Santo, mulher de ascendência negro-indígena, nascida no Extremo Sul da Bahia; esse caminho do trabalho acadêmico se encruzilhou com o outro, do trabalho espiritual, e, como Filha de Santo dessa casa, tive a honra de aprender, ensinar, planejar, executar, confeccionar e escrever sob constante orientação de nossos guias espirituais, e de me aproximar, ainda mais, e com todo o afeto e respeito, de Mãe Lia e de Pai Clayton. Seja pela comunicação direta comigo, por vias mediúnicas, ou falando pelo aparelho de Pai Clayton durante as giras, os guias espirituais estiveram presentes em cada passo, em cada ação, em cada imagem, em cada linha deste trabalho.
Por isso, minha metade cientista se perguntou, o tempo todo, se eu conseguiria ter o necessário distanciamento do objeto de estudo para fazer análises adequadas a partir das observações. Mas, enveredando por essa estrada, me vi toda coberta de poeira e descobri que a única forma de compreender a plenitude de um terreiro, sua história e ancestralidade, é, justamente, de dentro para fora, no envolvimento… é ser um terreiro, um corpo-terreiro. A ciência nunca é neutra: olhar de fora ou de dentro são lugares, que têm suas implicações e complicações. Se eu tentasse fazer este projeto antes de me tornar umbandista e filha de santo de Mãe Lia, eu certamente teria muito boa vontade e respeito, mas jamais conseguiria escutar e entender este chão com o nível de profundidade de quem, nele, se enraizou.
Felizmente, minha outra metade, filha de santo, está imersa na umbanda há quatro anos, sendo três desde a iniciação. Entretanto, o tempo cronológico parece-me estranho, porque insuficiente para justificar a ruptura de cosmovisão e modo de vida que vivenciei, desde então. Ser umbandista e “médium de toco” é muito mais do que participar das giras e atender a assistência: eu vejo, escuto e sinto, simultaneamente, o plano espiritual e o material, e não consigo “desligar” essa percepção, a cada dia mais intensa. Não tenho mais condições de separar espiritualidade e matéria, num mundo que é todo encantado, em que cada pessoa, animal, planta, pedra, objeto, lugar, astro… fala, canta, dança, sente, orienta, aconselha. Como, então, separar meu trabalho no terreiro do trabalho da universidade, se percebo, o tempo todo, o encanto do mundo?
Na convivência intensa, quase que diária, foi se construindo o amor por minha família espiritual, por Mãe Lia, por Pai Clayton, pelas irmãs e pelos irmãos de santo. Porém, eu não conhecia, praticamente, nada da história de meu terreiro. Conforme fui adentrando nos episódios e acontecimentos, entendi que falávamos, não apenas, da história deste povo de santo, mas da história desta grande “encruzilhada perversa” (como disse o baiano Zé Fernandino, por meio de seu aparelho, Pai Clayton) do Extremo Sul da Bahia e do Brasil, em uma perspectiva que tem sido ocultada: a das classes populares, oprimidas pelo capitalismo, pelo patriarcado e pelo fanatismo cristão, e negligenciadas pelo Estado. Essa história é a de Mãe Lia e de Pai Clayton, mas também é a minha, é a história de cada filha e filho de santo, porque o tempo não existe, e este trabalho espiritual, que fazemos agora, é o que vem sendo feito por nossos guias há, pelo menos, umas sete décadas.
Encontrar essas memórias foi um processo de me aproximar de minhas próprias raízes e de ressignificar práticas, rituais e a própria convivência. Seis meses depois de ter iniciado esse trabalho, o sentimento de pertencimento, enraizamento e gratidão se fortaleceu, e sinto-me na obrigação de transmitir o que aprendi e de zelar por esta tradição, de fazer parte da resistência que mantém acesas as velas dos assentamentos dessa cultura imaterial, enfrentando a demanda do desencante do mundo, lutando por e com nossos guias espirituais, que são tão vivos quanto nós.
Na umbanda, temos muitos pais e muitas mães, a quem agradeço. Agradeço a meu Pai Oxóssi, que, à frente, me ensina a direção, a disciplina, o silêncio e a concentração para acertar o alvo, e a meu Pai Xangô, que, na retaguarda, mantém no meu coração o senso de dever e de justiça. À Cabocla Jurema, sempre tão próxima, que é o ar que respiro, com cheiro de folhas, a bravura e a coragem, a prontidão para o combate, a força e a estabilidade de quem empunha o arco e a flecha, mas, também, a leveza e o movimento do toque do maracá. Dentre tantos outros guias, Ogum Xoroquê (que trabalha no cruzamento das forças de Ogum e Exu) veio me dizer que, sendo, Exu, o dono das palavras, e Ogum, o dono das estradas e vencedor de demandas, palavras são armas de guerra; que sejam, então, certeiras para quebrar feitiços e abrir caminhos para que os povos de umbanda, com os pés no chão, possam trabalhar!
Assim, encerro este ciclo, mas não esse trabalho, que está, apenas, começando. Deixe a gira girar…
Gabriela Andrade da Silva
Outubro de 2025
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