Por que Memoriô?

Foto de Daniel Sousa.
Emoriô deve ser
uma palavra nagô
uma palavra de amor
um paladar.
Emoriô deve ser
alguma coisa de lá
o Sol, a Lua, o céu
de Oxalá.
João Donato e Gilberto Gil, 1975.
O terreiro Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge, desde 1999, tem uma importante inserção espiritual, cultural e social na comunidade de Teixeira de Freitas (BA). Suas atividades preservam os saberes tradicionais de umbanda, que, transmitidos entre gerações, geram sentimento de identidade, de pertencimento e de continuidade, constituindo, portanto, patrimônio imaterial. Com recursos do Edital do Programa de Apoio à Arte e Cultura (PAAC) da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), pudemos propor e angariar recursos para iniciar este importante projeto de preservação das memórias desse Terreiro, que se entrecruzam com sendo parte, também, das memórias do Extremo Sul da Bahia.
O nome do projeto vem da condensação do verbo “memoriar”, que significa: “registrar em memória”, “escrever memórias; fazer relato, narração acerca de”1, com a palavra Emoriô, que surgiu e se propagou na canção composta por João Donato e Gilberto Gil,1 que traz uma frase no idioma iorubá: “E mo ri ô” significa “eu te vejo”. Buscamos dar visibilidade para o terreiro Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge, como guardião de tradições afro-indígena-brasileiras, esquecidas ou atacadas ao longo da história.
Proclamada e repetida como se fosse um ponto cantado, a canção anuncia que “Emoriô deve ser uma palavra nagô”. Nagô é “o indivíduo dos nagôs, designação de qualquer negro escravizado, comerciado na antiga Costa dos Escravos e que falava o iorubá.”2 Assim, a música celebra a ancestralidade africana, trazida, de forma forçada, ao Brasil. Oxalá, também citado na canção, é o orixá mais antigo na cosmologia iorubá, e, portanto, o principal representante da ancestralidade, guardião da sabedoria e da memória. Na umbanda, a linha de trabalho dos pretos velhos guarda os mistérios de Oxalá e traz a força e a resistência de uma memória que nunca encontrou lugar nos registros da história reproduzida pela branquitude, mas se mantém viva nas tradições orais e nas vivências cotidianas dos terreiros de umbanda.
- DONATO, João; GIL, Gilberto. Emoriô. In: DONATO, João. Lugar comum [LP]. Rio de Janeiro: Philips, 1975. 1 disco sonoro, faixa 9.
- Dicionário Oxford Languages, s.d.
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