Memorizar é decolonizar!
Este site, assim como um cavalo-de-santo, incorpora e dá visibilidade às pessoas, às entidades, a experiências, aos objetos, a pontos cantados, que sustentam, como raízes, o terreiro Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge, canzuá assentado na grande “encruzilhada perversa” (nas palavras do baiano Zé Fernandino, ditas por meio de seu aparelho, Pai Clayton) do Extremo Sul da Bahia. Encruzilhada geográfica, conhecida, regionalmente, como “tríplice fronteira”, marcando o encontro entre Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo; encruzilhada histórica, por ter sido o local aonde chegou, em 1500, a frota de Pedro Álvares Cabral, e uma das primeiras regiões colonizadas por portugueses no início do século XVI; encruzilhada etnicorracial, com uma população que foi se formando a partir dos descendentes dos povos originários que lograram sobreviver, de europeus colonizadores e de pessoas negras escravizadas. As origens do Extremo Sul da Bahia e do Brasil exprimem os fundamentos de uma sociedade plural, miscigenada, desigual e marcada pela pobreza e pela opressão.
Porém, nas encruzilhadas do Brasil, nasceu outra forma de resistência à colonialidade: a umbanda, que, até onde temos conhecimento, é a única religião que traz, nas crônicas de sua fundação, o tensionamento das relações étnico-raciais. Contam os relatos1,2 que, em 15 de novembro de 1908, durante um culto espírita kardecista, o médium Zélio Fernandino de Moraes incorporou o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Os dirigentes da casa espírita tentaram, sem sucesso, convencer a entidade a se retirar, por entenderem que espíritos de pessoas negras ou indígenas estariam atrasados no caminho evolutivo; o efeito foi inverso: outros médiuns ali presentes incorporaram caboclos e pretos velhos. Seu Sete Encruzilhadas perguntou por que os espíritos humildes de pessoas pretas e indígenas não eram admitidos naquele centro, e informou a todos os presentes que Zélio faria uma sessão em sua casa, na qual todas aquelas entidades poderiam trabalhar.
Reconhecemos que as umbandas já existiam antes, e que suas existências são muito mais amplas que o trabalho fundado por Zélio de Moraes; inclusive, a história do terreiro Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge é prova disso: os encantados já incorporavam e trabalhavam, muito antes de nossa ancestral saber o que era umbanda. Porém, retomamos esse episódio que, por ser tão conhecido, entendemos que é um mito fundante,2 e que encena, no nascimento da umbanda, um ato de resistência diante do racismo, que tentou impedir que falassem e trabalhassem espíritos ancestrais africanos e dos povos originários brasileiros. A umbanda, portanto, não procura ocultar as tensões das relações étnico-raciais, mas, pelo contrário, lhes dá visibilidade. Na ritualística, falanges de espíritos retomam os tipos populares, como: caboclos de pena (indígenas), pretos velhos, erês (crianças), boiadeiros, marujos, baianos, malandros, povo da rua, pombagiras (mulheres emancipadas e afrontosas). A umbanda dá lugar de honra e poder às pessoas marginalizadas pela sociedade brasileira, que se tornaram guias espirituais.
Reconhecendo a importância dos povos indígenas e africanos nos fundamentos de umbanda, sabemos que o apagamento das memórias de povos originários e negros escravizados é mais uma ferramenta para consolidar a colonização: as versões hegemônicas da história do Brasil, da Bahia e de Teixeira de Freitas reforçam o poder dos colonizadores, brancos e cristãos. Essa tem sido a história única, assimilada por pessoas brancas e não brancas. Conforme Chimamanda Adichie,3
A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história
Povo com memória tem a força da conexão com os ancestrais; tem a firmeza das raízes plantadas no chão; tem a estabilidade dos assentamentos;2 tem ligação com a terra – palavra da qual derivaram, etimologicamente, terreiro e território. conforme Eclea Bosi,4 “Do vínculo com o passado se extrai a força para a formação de identidade.” Luiz Rufino5 afirmou que “Combater o esquecimento é uma das principais armas contra o desencante do mundo. O não esquecimento é substancial para a invenção de novos seres, livres e combatentes de qualquer espreitamento do poder colonial.”
A preservação das memórias, nesse contexto, dá sentido à existência e formata um corpo que resiste, ao sentir-se parte de um tecido coeso, costurado pela ancestralidade.6 Memoriar se torna, portanto, ato de insurgência, de decolonização, resistindo contra o apagamento e a desconexão com o sagrado e a ancestralidade, que desenraízam as pessoas, tornando-as subservientes e menos resistentes aos desmandos coloniais. Além do mais,
Ela, a memória, é quem comanda a resistência, pois nos lembra que não temos o direito de desistir caso contrário não estaremos fazendo jus ao sacrifício de nossos primeiros pais. É interessante lembrar que a Memória é quem nos remete ao princípio de tudo, às origens, ao começo, ao Um criador. É ela que nos lembra de que somos fio na teia da vida. Apenas um fio. Sem ele, porém, a Teia desmorona. Lembrar isso é fundamental para dar sentido ao nosso estar no mundo. Não como O fio, mas como Um fio. Ou seja, lembra que somos um conjunto, uma sociedade, um grupo, uma unidade. Essa ideia impede que nos cerquemos da visão egocêntrica e ególatra nutrida pelo ocidente.
Daniel Munduruku, 2018.

Portanto, diante de tudo isso, entendemos que preservar a memória do tradicional terreiro Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge é uma forma de contar uma outra história, não só do terreiro, mas também, com a história dele, contar as histórias da cidade de Teixeira de Freitas e do Extremo Sul da Bahia. É dar força para que nosso povo resista e enfrente a demanda da colonialidade, e voz para que este chão também possa falar.
Referências
- CUMINO, Alexandre. História da umbanda: uma religião brasileira. São Paulo: Madras, 2010.
- SIMAS, Luiz Antonio. Umbandas: uma história do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2021.
- ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. Tradução de Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
- BOSI, Ecléa. O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
- RUFINO, Luiz. Pedagogia das encruzilhadas. Rio de Janeiro: Mórula editorial, 1987.
- MUNDURUKU, Daniel. As literaturas indígenas e as novas tecnologias da memória. In: DELGADO, Paulo Sergio; JESUS, Naine Terena de (Org.). Povos Indígenas no Brasil: Perspectiva no fortalecimento de lutas e combate ao preconceito por meio do audiovisual. Curitiba: Brazil Publishing, 2018.
Gabriela Andrade da Silva
Outubro de 2025
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