8. Andarilhava, corria léguas
Período estimado: 1980 – 1990
Andarilhava pelas campinas,
andarilhava pelas montanhas,
andarilhava, corria léguas
para salvar filhos de fé.
Ela é bonita, ela é Cigana, ela é mulher.
É ou não é, é ou não é?
Ela é bonita, ela é Cigana, ela é mulher.
Ponto cantado de Pombagira Cigana.
Aos 16 anos, Mãe Lia decidiu mudar-se para São Paulo para trabalhar em casa de família. Como não tinha documentos, a família registrou-a como se tivesse 18 anos. Lá, além de trabalhar, ela conheceu o seu primeiro marido, com quem teve dois filhos: Clayton (1986) e Jacqueline (1989). A relação, no entanto, foi abusiva, marcada por sérias violências psicológicas e físicas, a ponto de ter perdido outros dois filhos durante a gestação.
Mãe falava: “ó, a mesma palavra que eu falo pro marido, vocês têm seus marido, eu falo também, Daia1: ruim com eles, pior sem eles.” (…) Se eu tô viva hoje, desda barriga de mãe até aqui, é porque eles [os guias espirituais] me deram a vida, Deus primeiramente, né, e eles. Porque senão acabava com a vida… mals, e mals, e mals… Ser desenganada de médico, ser tudo… Perder filho na barriga que o pai matou e o médico dizer: vai ser difícil engravidar, e eu engravidar de Clayton, e Clayton tá aí… Nina…
Mãe Lia, julho de 2025.
Os relatos de Mãe Lia acompanham as narrativas de tantas outras mulheres que sofrem violências, mas não se separam, porque aprenderam que precisam permanecer casadas, seja por motivos religiosos, econômicos ou por pressão social. Nesse sentido, podemos compreender a demonização das Pombagiras, mulheres empoderadas, que não aceitam violências, são insubmissas, sabem se defender e defendem suas filhas. Mãe Lia conseguiu divorciar-se, em 1994, e casou-se novamente.

Nota:
- “Daia” era um apelido carinhoso usado por Dona Avelina para se referir à filha, Maria.
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