14. O filho vira Pai
2016-2017
Quem é filho de umbanda,
balanceia, mas não cai.
Ponto cantado.
Aí, depois, na gira seguinte, ele tornou falar: “minha filha, não duvida do que eu tô falando, cê vai ser zeladora, e cê tá vendo esse menino, seu, aqui?” Que era Clayton. “Esse aqui é que vai ser o seu braço direito dentro, essa minha fia [Jacqueline] é médium, também, mas a direção vai ser sua e desse menino, desse meu fio, dessa criança…
Mãe Lia, julho de 2025.
Pai Clayton é filho de sangue de Mãe Lia, e a acompanhou nessa jornada. Nasceu em São Paulo, presenciou as violências do pai contra a sua mãe, veio morar em Teixeira de Freitas quando ela se mudou para cá. Com dez anos de idade, viu a mãe “enlouquecer” e curar-se na umbanda, passando a acompanhá-la ao terreiro de Mãe Creusa. Ali, já se plantava a semente de seu trabalho espiritual. Nenhuma planta se desenvolve sem cuidado, sem esforço para enraizar-se no chão. Nas idas e vindas, a pé, pelas estradas, esse filho de Mãe Lia e de Ogum foi crescendo e se “enramando”.
Porque as sessões, lá, eram categoricamente toda quarta-feira. Então, a gente tinha um ritmo de preparar, assim: olha, é quarta-feira. Tinha que adiantar o almoço, tinha que adiantar a escola, se eu tinha pesquisa, ficava pra um outro dia, eu tinha que me virar, porque toda quarta-feira, três horas da tarde, a gente estava saindo de casa, pra ir… em 97, isso, 97, 98, para ir pro terreiro, porque tinha gira, a gira começava quatro da tarde e terminava às dez. Isso quando… a gente morava aqui, já no São Lourenço. Mas teve vezes… tiveram vezes que a gente saía do Estância Biquíni a pé. E Estância Biquíni, naquela época, era fora de Teixeira, era roça. Mas não que não seja, né, não seja distante, né. A gente saía de lá uma hora da tarde e fazia essa romaria, esse cortejo, do Estância Biquíni, lá no hospital Costa das Baleias. A casa dela é lá até hoje e o terreiro era lá. Íamos felizes. Voltávamos cansados, morrendo de sono, mas a gente voltava, porque lá estava a cura de mãinha, lá estavam os guias, as coisas mais sagradas pra gente.
Pai Clayton, agosto de 2025.
E ao passo que eu ia pra lá toda quarta-feira, inclusive… eu ia toda quarta, e toda quarta, eu desenvolvia um pouco. Como? Ouvindo, vendo, pisando no chão, olhando pro altar… Lembro de todas as imagens dela, que eu via, lá. Então, já comecei por ali. As orientações… Lembro que da primeira vez que ela falou, assim: “Olha, meu filho, cê tem guia também, viu?” Ela falou isso, não sei se você chegou a ver, ela falou lá no terreiro: “Falei, ou não falei, Clayton? Cê lembra que você era pequeno e eu falei pra você que você tinha guia?” Então, assim, é de família, né, a raiz vai vindo, né, a raiz… Vai enramando, enramando, e por aí vai… Mas desenvolver, mesmo, de mediunidade, foi a partir dos… 2007, a partir de 2007. Eu tava um pouco mal, em casa, no terreiro, ali, tinha o terreiro, já, em 2007… E aí, passei mal, uma coisa, assim, não sabia explicar, não sabia explicar. Até que São Jorge estava atendendo uma pessoa e ele mandou me chamar. E eu lá, né… No que eu fui lá, ele simplesmente me deu um giro, no primeiro giro eu não vi mais nada, né? Ali estava a comprovação de que eu tinha um guia. Ali estava, porque eu não vi nada…
Ainda que se perceba em seu relato o gosto pela umbanda, assumir as responsabilidades de trabalho de terreiro também não foi uma escolha imediata. Ele assumiu sua missão entre 2016 e 2017, quando Mãe Lia adoeceu, e ele teve que passar trinta dias no hospital, cuidando dela. A experiência foi marcante, provocando diversas reflexões. Poucos meses depois, ele, assim como sua mãe e a sua avó, Dona Avelina, teve problemas que poderiam ser encarados como enfermidades mentais.
(…) eu comecei a ter pânico. Por quê? Porque eu achei que… eu comecei a entender que corpo adoece, né? Então, assim, eu era mais novo, né, 29 anos… (…) eu comecei a parar pra refletir, isso foi me acumulando coisas… E nesse acúmulo de coisas, fui tendo medo… (…) O máximo que eu estava pensando, gente, será que eu estou doente? Será que é um câncer? Não, será que é uma infecção perigosa, o que que é? Eu já andava com um termômetro debaixo do braço… Medo… Tinha medo de dormir, medo de morrer. Não gostava de dormir, por quê? Porque toda vez que eu deitava, Gabi, quer ver… eu deitava na cama… [amassou sacola plástica com as mãos, mostrando o barulho] esse era o barulho que eu ouvia, e me desprendia do corpo, me desprendia do corpo, me via… tava no teto, olhando pra baixo, pra mim mesmo. Na primeira vez, o quarto tava escuro. Dormia com luz apagada… Na primeira vez que isso me aconteceu, o quarto tava tão claro, como se alguém tivesse acendido uma luz, só que uma luz azul. Daí, eu tive medo de dormir, não dormia mais com luz apagada, de jeito nenhum! A luz sempre acesa, na tentativa de falar assim: “Ah, isso não vai acontecer mais.”. Hum… parece que a luz apagava e a luz acendia, azulzinha. E eu tava lá, me olhando pra cá. Atravessei parede… atravessava a parede.
Pai Clayton, agosto de 2025.
Mas, diferentemente da situação de Mãe Lia, as vivências de Pai Clayton, no terreiro de sua mãe, trouxeram-lhe a compreensão de que a espiritualidade também era uma explicação possível para os fenômenos que ele vivenciou. Foi buscar a cura na combinação das tecnologias de cuidado próprias da psicologia, com as espirituais, que podia acessar em casa.
Eu tive que fazer terapias, arte-terapia, por exemplo… Porque eu já não aguentava aquilo. Eu sempre tava angustiado, uma depressão, também… eu sei que era depressão… Tinha medo da vida, desgosto da vida, só chorava, só queria dormir… Eu só dormia, Gabi… Se você me ligasse, aqui, você não me achava, mais não… Me trancava dentro de casa… Quando foi em 2017, aliás, final de 2016… Aí veio a sentença, né? “Cuida, ou cuida!”. Comecei a me cuidar, mediunicamente, sem precisar de nada médico, comecei a me cuidar, me cuidar, e tal, tomar banhos, fazer os preparos…
Pai Clayton, agosto de 2025.
Ao assumir sua missão, a posição de Pai-Pequeno se estabeleceu, naturalmente. Sendo, ele, quem era – o filho de sangue e acompanhante de Mãe Lia nas estradas da umbanda –, essa era sua função religiosa. Diferentemente de casas em que esse título é entregue por tempo transcorrido desde a iniciação, ou pela conclusão de cursos (pagos) e obtenção de certificações, as hierarquias no terreiro Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge fluem e acomodam-se por orientações espirituais.
Essa responsabilidade de cuidar, de preparar banho, de preparar o terreiro, parará… enquanto mãinha tá fazendo outras obrigações, sempre foi atribuída a mim, então, atribuída, não, sempre foi confiado, porque eu sempre tava ali do lado dela, né, deles, também, do guia, dos guias. (…) Então, se eu sempre estive ali, não precisaria de uma outra pessoa, né? Aquele lugar já era ocupado desde muito antes, involuntariamente, sem pensar, sem estruturar, sem nada. (…) Impressionante, né? Como essas essas questões são, sabe, Gabi? Eu acho que isso é tão… tão interessante pensar, porque é o seguinte: não precisou fazer esforço, né? Não é esforço. Você não precisa movimentar as peças pra… as coisas se organizarem. É igual pedra de cachoeira: onde ela cai, ela fica, né? E ela se encaixa pra cachoeira se formar. Então, vejo que a gente foi do mesmo jeito, as pedras foram se encaixando. Foram se encaixando e a cachoeira rolando.
Pai Clayton, agosto de 2025.

Foto: Daniel Sousa, 2024.

Foto: Daniel Sousa, 2022.
© 2025 por UMBANDALUZDEJORGE. Orgulhosamente criado por Terreiro de Umbanda Luz Divina de São Jorge





