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Memória e ancestralidade

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TULDSJ

3. Assentamentos

Você tá vendo aquela casa pequenina,
lá no alto da colina,
que eu mandei fazer?
É lá que malandro mora,
otário não tem moradia.

Ponto de malandro.

Quando criança, Mãe Lia morou nas terras de seu tio paterno. Em uma das casas morava a família do tio, e, na outra, onde havia funcionado um açougue, a família de Mãe Lia. As bases das casas eram feitas de pedra, recortadas de grandes lajedos; as paredes eram feitas de “tijolão”, confeccionado pela própria família, com barro: era preciso moldar, esperar secar e, depois, construir; e as coberturas eram de folhas de palmeira.

Mãe Lia caminha sobre a escada da porta de entrada de uma casa que, embora recente, foi construída sobre o mesmo assentamento, ou seja, alicerce de pedras, extraídas de lajedos próximos, erguido pelo tio de Mãe Lia. A casa, atualmente, pertence a uma família de moradores do Assentamento Edmundo Gusmão, em Jucuruçu (BA). Foto do acervo pessoal de Gabriela Andrade da Silva, julho de 2025.

Esse toco de árvore, próximo à base de pedra da casa, já estava nesse mesmo lugar quando Mãe Lia era criança. Na umbanda, usamos o termo “médium de toco” para nos referirmos aos médiuns que incorporam guias espirituais para realizar os atendimentos à comunidade; esse termo faz referência aos tocos onde, tradicionalmente, os médiuns, incorporados, sentam-se para atender.

Foto do acervo pessoal de Gabriela Andrade da Silva, julho de 2025.

Meu tio morava aqui, meu tio construiu aqui. Eles [novos moradores] modificou, que não era assim, não. E era feito, não era de lajota, que nós fez, com cimento, nada não. Era de tijolão. E essa base aqui, que hoje, que eu te falei, ainda tem as pedras. Então, aí, as pedrinha que meu tio botou. Esse toco aqui, já tinha também. Minha tia morava ali. Era dois comodozão grande. Aí pai, mais mãe e os meninos fez uma cozinha coberta, que nem essa aqui, ó. De palmeira.


Mãe Lia, julho de 2025.
Construção sobre a base de pedra onde a família de Mãe Lia morou.
Foto: Acervo pessoal de Gabriela Andrade da Silva.

Era a nossa casa. Era aqui. Aqui o alicerce era tudo de pedra, que ela era altona. Então pra cá era a puxadinha da cozinha. Mas era aqui. Você tá vendo, aqui, a altura que é aqui? Porque ela tinha um alicerce de pedra, assim, bem alta. Aqui tinha dois cômodos, que era uma sala grande e um quarto. Mãe puxou uma cozinhazinha pra crescer mais. Tinha fogão de lenha e tudo, né? E aqui era duas portas, porque, como era venda, aí nós viemos pra morar nessa antiga venda do Lu… A antiga venda era do irmão do meu pai. E a gente viemos morar aqui. O tio, lá, e nós, aqui, nessa casa. Aqui, era a passagem, que todo mundo passava aqui. Aqui era a roça de milho. Tá vendo aquele milho escuro, ali, assim. Era até aqui. Aquela estrada lá era difícil passar gente. Difícil, difícil, difícil, difícil. Então daquele lado de lá, que fica do pé de ingá pra lá, era a roça de cana, que era onde eles ia buscar pra fazer o café.1

Mãe Lia, 21/07/2025
  1. Nota: na falta de açúcar, que precisaria ser comprado na cidade, o café era adoçado com garapa de cana, produzida pela família.
Foto: Acervo pessoal de Gabriela Andrade da Silva, 2025.

E a nossa cozinha era coberta, assim [com folhas de palmeiras]. O resto da casa era coberto com taubinha.

Mãe Lia, julho de 2025.

Foto: Acervo pessoal de Gabriela Andrade da Silva, 2025.

As paredes eram feitas com isso aqui, que era tijolão. Era feito de barro, o tijolo… deixava secar, pra depois levantar a casa.

Mãe Lia, julho de 2025.

Foto: Acervo pessoal de Gabriela Andrade da Silva, 2025.

Aqui, cê tá vendo isso aqui? Esse pau, que chama de moirão, era enterrado aqui. Quem chegava pra visitar nós, amarrava [o cavalo] nesse pau aqui. Nunca apodreceu, tá vendo? Ele era enterrado no chão…

Mãe Lia, julho de 2025.

Local onde Seu Elias, pai de Mãe Lia, construiu uma biquinha, em meados da década de sessenta, para banho e outras atividades domésticas, como lavagem de louça, roupas e fatos de gado. Hoje, encontra-se uma roda d’água, construída por outros moradores, mais recentes, e já desativada.

Foto: acervo pessoal de Gabriela Andrade da Silva.

Aí eles botaram a bica, que a bica caía lá. Eles botô, aqui, mais ou menos, o comprimento da biquinha dessa caixa d’água aqui em cima, aquela direção, pra cair lá dentro, naquele poço que era onde a gente tomava banho. E aqui tudo coberto de mato. Então, quem passava lá da estrada, não via ninguém, tomando banho, né? E lavando roupa, também. Porque depois de lá da passagem, pros rapazes bonitos num passá e ver nós lavando roupa e prato lá… Nesse lajedo aqui, é que mãe comprava fatos de gado, aí ela comprava os fatos, nós buscava lá, bem longe. Aí trazia pra nós limpar aqui. Aí aqui no lajedo, nós limpava os fato… lavava tudo, deixava bonitinho. Aí todas as sujeira do fato descia, né? Mas isso antes da bica, porque depois que botou a bica, nós já limpava lá embaixo, pra não pegar gordura na bica, né? Pra não sujar. Aí já ficava aqui, o lajedo pra secar goma, pra fazer biscoito de São João… Aí era pra tudo. Pai, vem, quebra um bocado de… desse lajedo, carregando pedra, porque pai ia fazer uma casa pra nós ali, naquelas duas árvore maior. Aí nós carregou as pedra, tudo por aqui pra fazer o alicerce, a base da casa. E ali, Gabi… Ali era uma roça de arroz.


Mãe Lia, julho de 2025.

Na umbanda, um assentamento é um fundamento formado por elementos sagrados, que, juntos, criam uma base de força e de conexão com a espiritualidade. Nos assentamentos de Exu ou Pombagira, por exemplo, o elemento terra é fundamental, ancorando a energia espiritual no médium ou na casa. Assim, os assentamentos são pontos de fixação da força espiritual no plano material, de enraizamento no chão. E foram muitos os sentidos que a palavra “assentamento” assumiu durante a construção deste trabalho.

As casas das famílias, na ancestralidade de Mãe Lia, tinham paredes de barro e telhados de folhas de palmeira, materiais pouco duráveis, mas suas bases eram de pedra, elemento do orixá Xangô, dono da justiça, do destino. Ninguém constrói um assentamento de pedra para uma casa em que pretende morar por pouco tempo, e, portanto, entendemos que o propósito dessas famílias era permanecer.

Forçados a deixar esse espaço, pelas forças ocultas (ou nem tanto) do colonialismo, do capitalismo e seus feitiços, permaneceram os fundamentos, raízes, alicerces, assentamentos, construídos por eles. Hoje, esses espaços pertencem a um “assentamento” do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Enquanto isso, Mãe Lia continua sem terra… e lutando para permanecer em seu terreiro, assentado na grande encruzilhada de Teixeira de Freitas e do Extremo Sul da Bahia.

Nossos trabalhos, com assistência pública, acontecem a cada quinze dias, sempre aos sábados. Giras especiais também acontecem durante dias da semana específicos. Consulte nossa agenda e visite-nos.

​Rua: Santa Rosa, nº 53, Bairro Santa Rosa de Lima.
Teixeira de Freitas – BA.

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