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TULDSJ

5. “É Sultão das Matas, o caboclo vem aí…”

Assoviou, lá na mata, assoviou,
assoviou, do terreiro, deu pra ouvir,
ô, meu irmão, vai ver quem é,
é Sultão das Matas, o caboclo vem aí.

Ponto cantado de Caboclo Sultão das Matas.

Caboclo Sultão das Matas, incorporado em seu aparelho, Mãe Lia.
Foto: Daniel Sousa, maio de 2023.


Então, foi muito sofrimento. Aí, de mãe, né? Mãe vendo caboclo meter o machado na cumeeira da casa… mata, caindo em cima, e aquela coisa toda…


Mãe Lia, julho de 2025.

Dona Avelina gritou para chamar o esposo: “Nêgo, ô, Nêgo! Venha cá! Olhe aquele homem, lá em cima do telhado!” Seu Elias saiu da casinha, que ele mesmo construiu. Olhou para a cobertura da casa, de folhas de palmeira, apoiadas nas vigas de jacarandá, madeira muito comum nas matas daquele tempo, antes de chegarem os exploradores de madeira e de dignidades humanas. “Será que Avelina tá doida? Não tem homem nenhum lá em cima!”, pensou. Ela insistiu: “Você não tá vendo, Nêgo? Aquele homem preto, com o machado na mão! Quando ele bater o machado na cumeeira, a casa vai cair!” Era a prova de que ela estava doida, mesmo. Mas, de repente, a cumeeira se partiu no meio, rachou a casa, que se abriu em duas partes. Todavia, em se tratando de reconhecermos de que seres encantados existem, agem no mundo e atuam ao lado de pessoas dotadas de mediunidade, não podemos dizer que se tratou de um estado de uma condição de loucura nem fantasia nem sendo algo extraordinário. De fato, o caboclo Sultão das Matas colocou a casa ao chão, provando, dentre muitas vezes, de sua capacidade e de sua autonomia.

Os dias se passaram e a loucura de Dona Avelina só piorava, por assim dizer. “Nêgo, Nêgo, acode! A mata tá caindo, Nêgo! O homem preto tá derrubando a mata em cima de nóis!” Seu Elias continuou não vendo o que sua esposa via, mas viu quando, em seguida, a árvore tombou, quase em cima da casa. O homem negro, que só Dona Avelina via, era Seo Sultão das Matas. Por que um guia de luz faria isso? Porque Dona Avelina não cuidou; mais uma vez, ele avisou que ela precisava trabalhar. Ele só parou de derrubar a mata quando seu cavalo aceitou sua missão. Dona Avelina não teve Mãe-de-Santo ou Pai-de-Santo, nem terreiro, e não sabia o que era umbanda: Seo Sultão das Matas é quem a ensinou. Ia com ela para dentro da mata, e, ali, eles se tornavam um só.

Para quem não tinha visão, Dona Avelina estava louca, mas em terra de cego, quem tem um olho é rei. Ela se tornava cada dia mais sábia. Mandava Seu Elias caçar, dizendo o que e onde ele iria encontrar, e ele, mesmo dizendo que não era tempo de caça, saía para dentro da mata e voltava, algum tempo depois, com aquele animal abatido. Nesse caso, entendemos que antes da chegada de Oxóssi, pela diáspora africana, o caboclo Sultão das Matas, como tantos outros caboclos e tantas outras caboclas, já ensinava a caçar e era provedor dos alimentos, da cura e do conhecimento.

Em outro relato, Dona Avelina machucava os temperos num coco de sapucaia. Seo Sultão das Matas mandou pegar três: um para a água que ela teria que tomar, outro para os chás e remédios e outro para machucar os temperos para o preparo das comidas. Até mesmo a localização exata dos cocos de sapucaia, foi o caboclo Sultão das Matas que lhe ensinou.

Cascas de coco de sapucaia, usadas por Dona Avelina para beber água, preparar remédios e amassar temperos, por orientação de Seu Sultão das Matas.

Foto: acervo pessoal de Mãe Lia.

Quando Seu Elias chegava de volta, com a caça abatida, o tempero já estava pronto. A carne ia para o fogão de lenha, alimentado pelo fogo aceso com jacarandá, madeira que queima muito facilmente. Dona Avelina, então, jogava água no chão, botava a comida nas gamelas, e as gamelas, no chão molhado, e chamava as crianças e o marido para comer com os dedos. Estava seguindo as orientações dos caboclos, que só ela via e ouvia.

Ela sabia das coisas antes de todos. Certa vez, já deitada para dormir, sussurrou: “antes do galo cantar, uma mulher casada vai fugir com um homem casado.”. “Pronto, agora é que endoidou de vez”, pensou Seu Elias. Mas, de manhã, chegou a notícia do escândalo: quem é que podia imaginar que esses dois eram amantes? De louca, Dona Avelina foi virando sábia. Ela sabia fazer remédio e, em busca de muitos deles, vinha gente de longe, a pé ou montada. Quando chegava, a garrafada já estava pronta, porque os guias já tinham avisado quem estava chegando e qual era a receita. Não era, mais, somente Seo Sultão das Matas, porque, com o circular do tempo, ela também conheceu Dona Jurema, São Jorge, entre outros. Dona Avelina, com seus ancestrais, curava seu povo carente da medicina oficial e para pessoas privilegiadas pelo capitalismo.

Então, ainda que Dona Avelina tivesse medo do Seo Sultão das Matas, que derrubou sua casa, era ele quem cuidava dela e de sua família, arranjava comida e receitava remédios, num tempo e num lugar sem médicos e sem assistência do Estado. Portanto, foi ele quem permitiu a sobrevivência, em meio a tanta escassez, da família de Dona Avelina, incluindo sua filha, Maria, que, hoje, conhecemos como Mãe Lia.

E Seo Sultão das Matas não foi embora quando seu aparelho, dona Avelina, desencarnou, em 2019. Durante uma das giras de 2025, Seo Tranca Ruas das Almas, incorporado em seu aparelho, Pai Clayton, disse:

Quando passar na encruzilhada, não se esqueça de olhar pra trás,
pra quem veio antes docêis. Olhar pra trás e ver a vozinha do
aparelho, que veio antes, e que abriu o caminho pra mãe docêis, epra este aparelho trabalhar. Só olhando pro passado é que o chão
tem força. Onde está a vozinha agora? A vozinha está aqui! A água
que passou neste rio, lá atrás, continua passando, meus filhos. As
lágrimas que chorou lá atrás, continua chorando. O tempo não
existe! O passado está aqui, trabalhando com ocêis, e é por isso
que essa casa, que esse chão, tem força! Quem dá força é os que
vieram antes docêis! Tem que olhar pra trás, pra encruzilhada e pra
mata que ficou pra trás. Quem é o Rei da Mata? Quem é que
governa a mata? Que tem coroa de rei?! Sultão das Matas. A
vozinha continua cocêis. Seu Sultão das Matas ainda é chefe desta
aldeia!

Exu Tranca Ruas das Almas, 2025.

Seo Sultão das Matas continua trabalhando conosco, no terreiro, por meio do aparelho de Mãe Lia. Ela, então, confirmou essa informação: “O mesmo. Cheguei a arrepiar.” Além dele, a Cabocla Jurema e São Jorge, também continuam, por meio de Mãe Lia, o trabalho iniciado com Dona Avelina, no final da primeira metade do século XX. “Porque vem assim, de, vamos supor, geração, né? Pra ocê entender melhor, porque eu não sei te explicar, mas ocê sabe entender.”

Pelas nossas estimativas, Seo Sultão das Matas vem trabalhando e chefiando a nossa aldeia há, pelo menos, 70 anos – em período anterior ao nascimento de Mãe Lia, mostrando a força de uma tradição de encantarias que não surgiram em contexto de terreiro de umbanda; não havia uma ritualística estabelecida, mas a incorporação, em espaço doméstico, de caboclos e de outras entidades (inclusive, de tradição católica, como São Jorge, Santa Bárbara e Cosme e Damião), que, no contexto de opressão, negligência e abandono do Estado, salvaram vidas. Os guias, montados em seu cavalo, cuidaram de sua aldeia.

Nossos trabalhos, com assistência pública, acontecem a cada quinze dias, sempre aos sábados. Giras especiais também acontecem durante dias da semana específicos. Consulte nossa agenda e visite-nos.

​Rua: Santa Rosa, nº 53, Bairro Santa Rosa de Lima.
Teixeira de Freitas – BA.

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