9. Anoiteceu em São Paulo, amanheceu na Bahia
Período estimado: 1995 – 1999
E os baianos vão embora,
com Deus e a Virgem Maria.
Anoiteceu em São Paulo,
amanheceu na Bahia.
Ponto cantado pelo baiano Zé Fernandino.
Aí foi quando mãe falou assim, ó, “vai pra Teixeira, Sampaio [segundo marido de Mãe Lia], vai pra Teixeira. Teixeira é uma cidade com bastante gente. Morador. E tá chegando lojas, chegando tudo. Então, cê mexe com esse negócio de laje, vai pra lá.” Foi quando viemos, porque mãe pediu que viesse, né? Aí viemos de lá pra cá. Foi ali em Teixeira que tudo começou após isso.
Mãe Lia, julho de 2025.
Mãe Lia e o seu segundo marido, que era construtor de lajes, saíram de São Paulo e vieram morar em Teixeira de Freitas, em 1995, seguindo orientação de sua mãe, Dona Avelina, que lhe disse que a cidade estava crescendo muito rapidamente e eles, portanto, conseguiriam trabalho e dinheiro. Deixaram as crianças no interior São Paulo, no distrito de Vila São José, em Miracatu, com Dona Avelina. Eles pegaram um ônibus e chegaram na “rodoviária velha”, com somente 600 reais, ou seja, seis salários mínimos naquela época, um ano de Plano Real, e sem um lugar para ficar.
Vinte e dois anos em São Paulo, aí voltamos pra Teixeira. Mãe ficou lá, com os meninos. E eu vim com o meu atual marido, que eu já tinha separado há muito tempo do pai dos meninos, né? E deixamos eles lá e viemos pra procurar casa, alguma coisa. Indicação de mãe pra Teixeira, que eu nem conhecia Teixeira. Aí, depois, eu fui lá, busquei mãe, com um mês que a gente já tinha alugado casa que busquei mãe.
Mãe Lia, julho de 2025.

Mãe Lia e Sampaio, quando chegaram a Teixeira de Freitas, contaram com a boa vontade e a hospitalidade de algumas famílias da cidade. Passaram alguns dias morando “de favor”, até conseguirem um chão para se enraizarem.
Aí eu falei, Sampaio, vamos sair por aí, andando? Pra qualquer lugar, vambora! Aí nós saiu, pegamos, hoje eu sei que foi a Getúlio Vargas, e subimos. Quando nós chegamos lá no posto Canaã, tinha a guaritinha. Tava lá o corretor [imobiliário]. Sem nenhum centavo no bolso, aí o corretor falou assim, tem uns terreno ali, levou nós pra olhar, no Estância Biquíni. Aí ele [Sampaio] falou assim, “ó, eu quero esse terreno, quero esse, quero esse, e quero esse.” Sampaio, ocê vai pagar com o que, menino?! “A entrada, é com quantos dias?” “O senhor que marca.” Ele falou: “Então, com 30 dias, mas eu acho que antes eu já acerto com o senhor a entrada.” (…) Não pagou um dia pra ninguém, ele levantou a casa. (…) Aí a vida subiu, eu ia me preocupar com o que, de novo, né? Mais nada! Carro zerado na porta, dinheiro entrando igual água…
Mãe Lia, julho de 2025.
Esse relato mostra um momento histórico em que Teixeira de Freitas, recém-emancipada de Caravelas e de Alcobaça, em 1985, teve um crescimento econômico e populacional importante. Em outro período, São Paulo foi vista como cidade em que se poderia conseguir prosperidade, mas o cenário se inverteu, e Mãe Lia retornou para perto dos seus assentamentos – desta vez, na cidade e não mais na roça. Caminhando pelas estradas e pelas avenidas da vida, ela foi se reconstruindo, ao mesmo tempo em que seu marido construía lajes.
Os relatos de Mãe Lia e de Pai Clayton mostraram, também, um aspecto cultural de Teixeira de Freitas que foi se perdendo ao longo dos últimos 20 a 30 anos. Chegando aqui, encontraram uma comunidade solidária, que recebeu, gratuitamente, imigrantes desconhecidos em suas casas; terreiros que atendiam e recebiam apoio de sua vizinhança; e festas e tradições que, hoje, entraram em extinção, como o Caruru de Cosme e Damião.
Mãinha gostava de fazer um tal de natal, isso começou desde 97. Aí, mãinha, influenciada por vó… Mãinha fazia o Natal e fazia encontro de cantadores de reis. Então, Natal, pra gente, nossa!…, era coisa linda! Eu acho que eu tenho raiva de Natal, hoje em dia, porque não tem mais isso, eu olho pra lá, e não tem mais como acessar aquilo lá… Aí, reunia todo mundo, ela convidava… parecia uma festa de aniversário. Era um negócio, assim, totalmente, Lia França, o jeito de Lia França fazer as coisas… do jeito dela, né? Era porco, era carne assada, era comida, e comida, e bebida, e refrigerante, suco… Não, suco, não, refrigerante, cerveja… e era festa, mesmo!
Pai Clayton, agosto de 2025.
Atribuímos esse apagamento de tradições ao fortalecimento do fanatismo cristão, que, como uma monocultura, busca arrancar, como se fosse erva daninha, qualquer cultura diferente daquela pregada por padres e pastores. Nesse sentido, o terreiro Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge tem resistido aos ataques, mantendo certas tradições, como o Caruru de Cosme e Damião e as portas abertas para apoiar, gratuitamente, a sua comunidade. Não somos erva daninha: somos planta nativa do território do Extremo Sul da Bahia.
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