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TULDSJ

12. Nasce uma Mãe de Santo

Período: 1997 – 1999

Ô, lua nova,
ô, lua cheia,
Senhor São Jorge,
venha ver a sua aldeia.

Ponto cantado de São Jorge

O primeiro contato que mãinha teve com a Mãe-de-Santo, numa consulta, no terreiro, a Mãe de Santo já falou: você é médium. Tudo isso aqui que está acontecendo, assim, uma consulta, inclusive, desincorporada, nem incorporada tava… Então, ela olhando para a mãe, o guia falando, né, comentando, e ela passando, comunicando, mediunicamente, o antes, o durante, e, possivelmente, o futuro que ela ia, né? Só que foi interrompido, porque ela mesma falou: “olha, não vou para frente não, vou voltar lá atrás, porque você não está acreditando no que eu estou falando.” (…) Com a barra da saia, e ela foi contando a partir da barra, a barra da saia não é circular? Então, ela foi girando a barra da saia, e conversando, as duas na cadeira, ali. (…) Então, ali foi a sentença de que mãinha era médium. Só que mãinha, também, mesmo anunciada como médium, mãinha nunca esperou que ela fosse ser mãe de terreiro. E as coisas foram desenvolvendo em um prazo de tempo muito curto. Muito curto.


Pai Clayton, agosto de 2025.

Anunciada como médium, Dona Maria D’Ajuda iniciou o seu desenvolvimento mediúnico no terreiro de Mãe Creusa, em 1997. Em cerca de dois meses, passou da fase em que mal podia equilibrar-se quando incorporava para um estágio em que seus guias já falavam e davam consulta. Ela se tornou conhecida na vizinhança pelas curas e pelas orientações certeiras de suas entidades. A própria Mãe Creuza, em visitas ao terreiro Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge, reafirmou os destino de mãe-de-santo de Mãe Lia e que o Pai Clayton trilharia pelo mesmo caminho. Mãe Creuza sempre saudosa ao lembrar os anos em que Mãe Lia, com seus filhos de sangue, iam todas as quartas-feiras participarem dos trabalhos em seu terreiro.

E aí, eu incorporava, mas picando a cara pelas paredes, tudo, sem controle… porque no início é assim mesmo, né? E pau pra lá e pra cá, até firmar… eu não tava, ainda, firme, não.


Mãe Lia, julho de 2025.

Pai Clayton reitera, ao relatar que

No primeiro dia que eu conheci a Mãe-de-Santo de mãinha, ela falou, assim, “olha, sua mãe tem guia”. E, na minha cabeça, de menino de dez anos de idade, a Mãe de Santo de mãinha tornou-se a referência, então, mãinha tinha que rodar. A Mãe de Santo de mãinha rodava, menina, que parecia assim, saltar, flutuar, levitar do chão. (…) E aquilo, pra mim, chamou a atenção demais. Porque, na minha cabeça, Mãe de Santo também tinha que rodar daquele jeito. E se mãinha tinha guia, ela tinha que rodar daquele jeito também. E quando eu vi mãe incorporada pela primeira vez… falei assim, não, isso aqui não é guia não [rindo], guia, desse jeito? Alá, mãinha tem que ficar segurando, olha que coisa feia. Eu achava a coisa mais feia, era coisa muito nova… (…) Mas, enfim, aí mãinha batia aqui, acolá… caía, né? Aí, aquilo ficou na cabeça, e mãinha foi desenvolvendo.

Pai Clayton, agosto de 2025.

Em 1999, a entidade São Jorge de Mãe Creusa anunciou que dona Maria, que Mãe Creusa chamava, carinhosamente, de Lia, era Mãe-de-Santo, e deveria abrir seu próprio canzuá. Foi assim que ela passou a ser conhecida como “Mãe Lia”. Assim, próximo ao Natal de 1998, Mãe Lia comprou dois quadros: um com as imagens de Cosme e Damião, outro com a imagem de Santa Bárbara. Desse altar intimista, no início de 1999 passou a ser um congá, quando, com autorização, licença e fundamentação de Mãe Creuza, Mãe Lia e começou a atender em sua própria casa, como era, assim, comum, às umbandas. Estas surgiam de dentro de casa.

Imagens de Cosme e Damião, no caruru em suas homenagens.
Foto: Daniel Sousa, 2020.

Foi quando ele [São Jorge de Mãe Creusa] disse, assim: “essa minha fia, ela é medium, mas não é medium de incorporação no terreiro dos outro, não. Ela não é. Ela vai ter o terreiro dela, ela vai ser zeladora de santo.” Eu falei: ô, meu fio, não. Ô, meu pai! Se eu não sei acender uma vela, como é que eu vou fazer isso? Ele disse: “Ó! Meu apareio não sabe de nada, também, não, mas quem ensina é Deus e nós.”
Na outra gira, ele falou assim: “Ó, a mesa. Afirma uma mesinha, e ensinou como era pra ser feito, o que era pra ser posto nessa mesa. Sampaio fez a mesa. Era bonitinha, ele fez assim, catou os pauzinhos, ele era caprichoso, fez a mesa, botou lá, eu forrei com a toalha branca. A velinha firmada, ali, fui lá, comprei uma imagem, um quadrozinho de Santa Bárbara, outro de Cosme e Damião, que não era quadro de moldura, não, era desse de plástico passado, assim… nem sei o que é desse quadro, se ainda tem…


Mãe Lia, julho de 2025.

Mãe Lia seguiu as orientações e fundou seu terreiro nas festas da virada do ano 1998 para 1999, com a presença da sua mãe-de-santo, conforme eram regidas as umbandas. Hoje, sabemos que essa tradição e fundamento, muitas vezes, são desfeitos, desrespeitados. Os atendimentos, sempre gratuitos, eram feitos na sala de sua própria residência.


Isso aí era o que… o fundamento do terreiro… A oficialização, na verdade. Foi quando…? Foi no dia primeiro de janeiro. A mãe de santo de mãinha, inclusive, foi fazer uma limpeza em casa, pra abrir o terreiro. Nisso, mãinha já tinha o altar dela, já tinha uma imagem de gesso, que é aquela Nossa Senhora Aparecida que tá lá… nessa época, né? aquela imagem de gesso, nossa!, era um luxo, tê-la! Era tão caro, Gabi… não que hoje não seja, né? Mas era um negócio, assim… eu via lá na mãe de santo de mãinha, um altar cheio de imagem de gesso… Então, assim, na minha infância, eu imaginava que um altar também tinha que ter… Aí, nossa senhora! Aquilo ali era um status, pra mim, uma satisfação… Beleza… Quando foi… ela foi lá, abrir o terreiro, abriu o terreiro bem na confraternização de ano novo, o reveillon, trinta e um pro dia primeiro de janeiro de 99, 98 pra 99… e foi muito bom! Foi, ixe, tinha muita… tinha os vizinhos… Porque o terreiro era vizinho, a assistência do terreiro era o vizinho, a corrente do terreiro era o vizinho, a vizinhança, era a coisa mais linda! Sabe, dentro de casa… era, assim, uma garagem, né? Ainda tem essa… o terreiro ainda não tinha espaço, não tinha espaço pra terreiro… Sempre foi um quarto, sempre foi uma garagem, sempre foi esse negócio…


Pai Clayton, agosto de 2025.

A primeira imagem de gesso do congá terreiro Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge:
Nossa Senhora de Aparecida, adquirida em dezembro de 1998.

Mãe Creusa foi a responsável por fazer os fundamentos para que Mãe Lia pudesse abrir o terreiro e trabalhar na sua casa, como é tradição na umbanda popular, em que só se abre um novo terreiro por orientação dos guias espirituais, e com o suporte de outra Mãe ou Pai-de-Santo. Assim, se transmite o axé. A umbanda popular tem uma tradição ancorada no sentido de comunidade: uma casa não tem início por vontade de uma pessoa, pois seus fundamentos precisam ser plantados por uma Mãe ou Pai-de-Santo, mediante ao reconhecimento dos guias espirituais de que aquela pessoa tem missão.

Fez os fundamentos, porque falou, a mãe-de-santo falou, assim, “ô, Lia, pode tocar o barco, minha filha… agora é com você.”. Pronto. Ali, foi como se mãinha tivesse desapegado da mão da mãe dela, assim, fala assim: “Ó, aprendi a caminhar, tô engatinhando, vou andar…” Entendeu? E aí, mãinha teve os fundamentos feitos, não era coisa complexa, por quê? Porque o encantamento do terreiro, Gabi, sempre esteve no guia. Sempre esteve. Hoje, como as coisas mudaram, não dá pra gente falar assim, olha… abra o terreiro de qualquer jeito, não é por aí… Não é nem hoje, mais, o terreiro da Mãe-de-Santo de mãinha, tanto ele também tem bastante coisa, né? Então, assim, foi aí que começou. Fez os fundamentos, aí, de 99 pra cá, foi indo, mãinha trabalhou sete anos sem corrente, sozinha, dando conta das coisas, eu como auxiliar…


Pai Clayton, agosto de 2025.

É importante mencionar que essa passagem de uma cristã, evangélica, da Igreja Deus é Amor, para umbandista e Mãe-de-Santo, não foi fácil. Toda a construção colonial se dá na valorização da tradição cristã, demonizando as religiões de matrizes indígenas ou africanas.

Na primeira vez que mãinha ouviu, você tem guia, você é médium, mãinha pulou da cadeira, falou não, não aceitou, era crente, que só Jesus libertava, só Jesus queimava aquilo ali… que ela tava precisando de ajuda, não tava precisando de guia, que não sei o que, e tal. E aí ela começou, né? Ela começou.


Pai Clayton, agosto de 2025.

Mesmo após assumir a condição de umbandista e Mãe-de-Santo, em alguns períodos, Mãe Lia guardou ou quebrou suas imagens, desistiu de ser Mãe-de-Santo e retornou para as igrejas evangélicas, inclusive cedendo o espaço de sua casa, onde, antes, funcionava o terreiro, para os cultos. Mas os guias voltavam a lhe cobrar, e ela retomava os trabalhos na umbanda.

Aí, Gabi, eu já tinha pegado tudo, já tinha arrumado tudo de imagem, quebrei umas, Clayton acudiu logo aquela Cigana, que tá lá dentro da tronqueira. “Mãe, ó, não toca aqui, ó, essas aqui, não mexe!” Eu obedeci ele. Mas já tava dentro da caixa, tá bom. Aí, menina, os cultos já passou a ser cá. Onde era o terreiro, já passou a ser a igreja. As cadeiras, tudo, todo mundo sentava.

Mãe Lia, julho de 2025.

Assim, nas idas e vindas, ora se submetendo, ora enfrentando as estruturas coloniais, Mãe Lia foi consolidando seu trabalho, como sendo Mãe-de-Santo, em Teixeira de Freitas (BA), e consolidando as bases do terreiro Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge.

Nossos trabalhos, com assistência pública, acontecem a cada quinze dias, sempre aos sábados. Giras especiais também acontecem durante dias da semana específicos. Consulte nossa agenda e visite-nos.

​Rua: Santa Rosa, nº 53, Bairro Santa Rosa de Lima.
Teixeira de Freitas – BA.

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