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TULDSJ

11. “Além de rezar, tinha que cantar”: pontos cantados

Encontrei Nossa Senhora,
encontrei Nossa Senhora,
com seu raminho na mão,
com seu raminho na mão.

Eu pedi ela um galhinho,
eu pedi ela um galhinho,
ela me disse que não,
ela me disse que não.

Eu tornei a vós pedir,
eu tornei a vós pedir,
ela me deu seu cordão,
ela me deu seu cordão.

O cordão era tão grande,
o cordão era tão grande,
que do céu ‘rastou ao chão,
que do céu ‘rastou ao chão.

No meio tinha o letreiro,
no meio tinha o letreiro,
da Virgem da Conceição,
da Virgem da Conceição.

Bendito de Nossa Senhora da Conceição. Segundo Pai Clayton, “Esse foi o primeiro ponto que a gente aprendeu na vida, que vó ensinou pra gente”.

Um aspecto importante da cultura de umbanda são os pontos cantados. Aprendidos e ensinados pela oralidade, eles são fundamentais e vivos na ritualística: abrem e fecham, fixam, chamam e mandam embora, fazem e desfazem, defendem e contra-atacam, apresentam, contam histórias… tudo num constante movimento, acompanhando cada ação dentro das giras.

A inexistência de livros, manuais e documentos escritos faz com que essa cultura dos pontos cantados da umbanda popular seja ainda mais rica e mais viva. Cantamos, não apenas, o que aprendemos com a Mãe-de-Santo, com o Pai-de-Santo e irmãs e irmãos mais velhos: os guias “trazem o ponto”, isto é, trazem do plano espiritual, em que eles vivem, para o plano da matéria, em que vivemos e para onde eles baixam ao incorporar, os pontos que, lá, existem, e ensinam-nos a cantar. Assim, a dinâmica de uma gira, no terreiro Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge, é viva, e sempre há pontos “novos” – usamos esse termo, não pelo tempo de existência deles, que existem num plano em que o tempo nem existe, mas por serem novos para nós, membras e membros daquela comunidade de terreiro, que nunca os ouvimos antes, e, às vezes, demoramos a aprender, para desgosto dos guias, que insistem, repetem e reclamam se erramos.

E, embora os guias possam trazer pontos na hora, também é comum trabalharem com outros pontos cantados, mais tradicionais, passados de geração a geração, disseminando-se por diferentes terreiros. Assim, quando dona Maria (hoje, Mãe Lia) iniciou-se no terreiro de Dona Creusa, Dona Avelina decidiu ensinar, à família, os “benditos”: cantos do catolicismo popular e, muitos deles, aprendidos em seus tempos de lavadeira de roupas, nas águas do Rio Jequitinhonha, pelas searas mineiras e por suas itinerâncias.

E aí, minha fia, todo dia, de tardezinha, de noite, quando terminava o serviço, que ia pra escola, que vinha que ajudava Sampaio [segundo marido de Mãe Lia] até 11 horas, né? Tomava banho pra ir pra escola… chegava, aí, mãe ia ensinar… ensinava os bendito, ensinar tudo, ensinar tudo…


Mãe Lia, julho de 2025.

Além disso,

E aí, os guias começaram a descer, era São Jorge, era Santa Bárbara, era Cosminho, era Sultão… Nisso minha avó acompanhando, minha avó gostava de cantar os benditos. Era ela que ensinava a gente a cantar benditos. Aí, que ela é do Jequitinhonha, né, lavadeira… e as lavadeiras fazem, né… a lavagem… as lavagens de roupa, cantando. Então elas vão pro Rio Jequitinhonha e lá na pedra, no lajedo, elas se juntam, começam a lavar aquela bacia de fulano, das roupas de fulano, e começam a cantar. Então, pra minha avó, cantar sempre foi uma coisa maravilhosa, né? E aí ela sabia, que além de cantar, por exemplo, umas cantigas, assim, de poemas, de… sabe o repente, que eu falo? Tem um nome pra isso. Eu canto e você responde, aí no que você fala, eu respondo também. Aí, Gabi, vó tinha esse costume de cantar. Foi no cantar que as coisas começaram a fazer sentido pra mim, porque eu via que, tinha que, além de rezar, tinha que cantar.


Pai Clayton, agosto de 2025.

O relato de Pai Clayton mostra que parte das tradições dos pontos cantados deste terreiro de umbanda popular está fundamentado nas cantigas das lavadeiras do Rio Jequitinhonha, os benditos, cantos do catolicismo popular. E, para quem acha que isso não deveria fazer parte das tradições de umbanda, destacamos o papel fundamental que esses benditos tiveram na construção do terreiro Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge.


Então, assim, isso não é ponto, mas ele tem uma melodia de ponto. As oralidades cantadas, elas se aproximam, assim, marcas parecidas, né? Mas, nisso, também tinha os benditos católicos, então, vó aprendeu muito bendito de Cosme Damião, de Nossa Senhora, de São Jorge… e esses benditos eram os pontos cantados. Aí, sim, eles se tornaram, né? Aí, sim, foi marcando de, olha, esse aqui é religioso. Então, vó é quem nos ensinava. (…) a gente se reunia à noite, à noite, inclusive quando faltava luz. Ou lá no Estância Biquíni, teve uma época, também, que não tinha luz. (…) A gente não tinha a TV pra assistir, né? Não tinha como assistir, mas tinha TV. Porque o bairro tava começando, era um bairro, um loteamento. Aí, Gabi, a gente se reunia, não tinha celular. A gente se reunia, vó era vizinha, assim. Aí a gente combinava, olha, hoje a gente vai rezar, vamos rezar. A vó vinha em casa, depois da janta, e a gente começava a fazer uma oração, e aí, vó buscava na memória o que que ela lembrava.


Pai Clayton, agosto de 2025.
Curimbas ao lado de uma firmeza, feita sobre um ponto riscado.

Nossos trabalhos, com assistência pública, acontecem a cada quinze dias, sempre aos sábados. Giras especiais também acontecem durante dias da semana específicos. Consulte nossa agenda e visite-nos.

​Rua: Santa Rosa, nº 53, Bairro Santa Rosa de Lima.
Teixeira de Freitas – BA.

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