7. Desterro
Período estimado: 1970 – 1980
Eu plantei café de meia,
eu plantei canavial,
café de meia não dá lucro, sinhá moça,
mas a umbanda, ela dá.
Deixa a vida melhorar.
Ponto cantado de Pretos Velhos.
A vida já tinha melhorado e a família já possuía roças e criação de animais. Seu Elias, pai de Mãe Lia, teve um desentendimento com um patrão, que pagou por um feitiço contra Seu Elias.
E aí foi o caso do prejuízo, que o homem achou, porque pegou a empreitada e não terminou. Não deu pra fazer no prazo que ele queria, né. Que ele achou que tinha. Aí, menina, ele chegou, papai, e falou assim, “ô, Seu Elias, me empresta aquela alavanca do senhor?” Aquela alavanca que o pai moía cana pra tirar a garapa pra fazer café. Chamava subaco. Mãe, de lá de dentro, falou assim, “Elias, cê vai emprestar… pra ele… o ferro, o pau de moer cana? O braço do subaco?” Mas pai tinha um coração muito bom. Então, emprestou. No outro dia, de tardezinha, ele [o patrão] trouxe. O pai botou aqui, ó. Na hora que botou… a alavanca quebrou. Na hora que a alavanca quebrou, o pai já gritou. Com uma dor no joelho. Não bateu, não. A alavanca quebrou, cá, pai moendo a cana e o pai já botou a mão aqui. E aí teve que ir parar lá no Raul. O finado Raul, que é pai de santo de Creuzinha [Mãe de Santo de Mãe Lia], que é avô de santo meu, bisavô de santo de seus, foi ele que tratou de painho. E aí só começou. E nada mais ia pra frente. Nada. A ponto de pai vender a terra, que era terrona, vender a terra a troco de uma espingarda, vendeu essa espingarda, pegou esse dinheiro e nóis foi parar em Santo Antônio. Eu com um ano de idade.
Mãe Lia, julho de 2025.
Embora Dona Avelina tivesse guias, ela não tinha as tecnologias de terreiro para combater essa demanda. A partir dali, a família foi perdendo tudo e voltou para uma situação de fome e de miséria. Seu Elias trocou sua terra por uma espingarda, deixou a esposa, as filhas e os filhos morando de favor em Santo Antônio (distrito de Teixeira de Freitas) e foi para São Paulo, capital, onde trabalhou construindo a mansão do apresentador de TV, Sílvio Santos. O plano dele era juntar dinheiro e retornar, para ajudar a família. Entretanto, ele voltou sem nada.

Esse episódio, em que o patrão paga para fazer um feitiço, com a finalidade de derrubar e de desterrar o trabalhador, mostra que a colonialidade do poder não é mantida, somente, por meio de manobras econômicas, catequização e exploração da força de trabalho. A cosmovisão da umbanda percebe esse poder mantido, também, por feitiços, comprados por quem tem capital econômico, até porque, até hoje, feitiço não é barato, financeiramente, falando. Sobretudo, quando se tratam dos feitiços prometidos por pessoas charlatãs.
Pessoas, grupos, religiões e canzuás que desmancham demandas de graça são uma ameaça ao capitalismo. Inúmeras vezes, o terreiro Tenda de Umbanda Luz Divina de São Jorge é alvo de falas de que “tira dinheiro de muitas mães-de-santo e pais-de-santo”, por não cobrarem, financeiramente, pelos trabalhos prestados à comunidade. Assim, na doutrina da umbanda popular, seus filhos e filhas de santo trabalham “na caridade”, por amor ao próximo, e isso é decolonial, porque atinge os fundamentos do mundo ocidental, assentado no dinheiro. Por isso, essas pessoas e grupos são desacreditados, perseguidos e demonizados, enquanto que homens brancos e ricos continuam mantendo seu poder e influência, sendo divinizados, quando cobram o dízimo e o sacrifício de seus fiéis.
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