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TULDSJ

6. Nasce uma filha de Santa Bárbara

30/10/1966

Dona Avelina se preparava para ganhar seu oitavo menino, como ainda dizem algumas pessoas mais velhas. Naquele tempo, sem exames de imagem, não era possível saber o sexo do bebê, e sempre diziam “o menino”. A ciência da branquitude ainda não tinha colonizado os saberes e práticas das parteiras, pois, para bem e para mal, não havia hospitais ou médicos na região, e os partos eram domiciliares, naturais, com apoio e amparo da espiritualidade, nessa tradição que, atualmente, tem lutado para resistir às tentativas de apagamento e aniquilação.

Assim, a parteira chegou para ajudar Dona Avelina, examinou-a e avisou que “o menino” dela ainda ia demorar a nascer. A casa não tinha portas internas, então, a porta do quarto foi coberta com uma esteira, para dar alguma privacidade e evitar que as crianças vissem a cena do parto. Junto com seu compadre,1 Elias, a parteira foi para a cozinha, ferver água e panos, preparar banhos de mastruz com sal e mentraste.

Não existia porta, nem cortina bonita, era uma esteira, né? Pregadinha lá no batente da porta, lá em cima, que era a cortina, que era para as crianças cá não verem tudo lá acontecendo, né? O pai saiu. Quando o pai e essa parteira saiu de dentro do quarto, abriu a esteira, assim, um pouco, e apareceu uma mulher vestida de branco e do cabelão. Eu queria ter o cabelo igual a ela. Antigamente eu tinha, agora não tenho nada. Do cabelão. E abriu a esteira, que era a cortina, né? E abriu, assim, e falou assim, sua menina vai nascer agora. Sua menina vai nascer agora. Nisso, que essa mulher falou, nisso que a menina de mãe ia nascer agora, era eu. Era eu. Ela puxou a esteira de novo e sumiu. Desapareceu naquela hora. Mãe já gritou, “corre aqui, comade, corre, comade, acode, Nêgo, e tá nascendo, o menino tá nascendo!” Mãe ainda confirmou o menino. O menino tá nascendo, o menino tá nascendo. Quando vieram, eu já tava com a metade, já tinha nascido a metade, pra fora, já tinha… foi bem rápido. Quando a parteira falou que eu não ia nascer naquela hora, foi naquela hora que eu nasci. E uma menina, mesmo.


Mãe Lia, agosto de 2025.

Santa Bárbara, incorporada em Mãe Lia, ao lado da imagem em gesso, enfeitada para a celebração de seu dia.

Foto: Daniel Sousa, dezembro de 2024.

Nota:

  1. É tradição das parteiras reconhecerem, como comadres e compadres, o casal ao qual prestaram assistência no nascimento de suas filhas e/ou de seus filhos.

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