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Memória e ancestralidade

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TULDSJ

4. Esta cova em que estás, com palmos medida

Casinha branca, casinha branca,
que eu mandei fazer,
pra oferecer a meu pai, atotô,
saravá, Obaluayê.

Ponto cantado de Obaluayê.

“Esse chão também quer falar!”, disse-me Seo Tranca Ruas das Almas, incorporado em Pai Clayton, pouco antes de sabermos que faríamos este trabalho, todo fundamentado no chão. O chão que acolhe famílias retirantes, sobre o qual se anda (como gostam de fazer os Ciganos, e, também, Ogum), sobre o qual passam rios, no qual se planta, se assentam casas ou terreiros, se enterra pau para fazer moirão, se cava vala para servir de cerca, do qual se tira o material para fazer tijolão. O chão, que dá vida, e também recolhe os mortos.

Ao contrário dos espaços urbanos, em que os mortos são sepultados confinados a um pequeno espaço de um cemitério (ponto de força de Omolu, conhecido na umbanda como calunga pequena), nesse chão, os corpos permaneciam nas terras onde as pessoas tinham vivido. Alguns foram guardados em túmulos construídos pela família, porém, noutros casos, sem as formalidades de uma lápide, de inscrições ou outros registros escritos, os relatos orais é que informam onde estão os ancestrais. Aquelas terras já não pertencem, mais, aos descendentes, mas ainda acolhem, em silêncio, o que restou da materialidade dos familiares que já desencarnaram.

À distância, observa-se a paisagem em que Mãe Lia apontou estarem enterrados seus avós e um tio.
Foto: arquivo pessoal de Gabriela Andrade da Silva.
Nesse túmulo, sobre o morro, foi sepultada uma das moradoras da casa onde, em outros tempos, viveu a família do tio de Mãe Lia.


Mãe Lia:
Minha vó tá sepultada numa estrada, assim. Essa minha avó e o marido dela tá sepultada lá naquele morro lá, tá vendo? Que não tem aquela casa? Pra cima da casa tem aquelas árvore lá, ela tá sepultada lá, porque ali tudo era nosso, no caso, dela, né? Então, ela tá sepultada lá, ela, o marido e um filho.

Gabriela:
E tem lápide, alguma coisa assim?

Mãe Lia:
Não tem, não tem marcação, né?


Mãe Lia e Gabriela, julho de 2025

Diante dos relatos de vida e de morte, que atravessam mais de uma centena de anos, perguntamos: de quem é o chão? De grandes fazendeiros, que compraram pedaços de terra para explorar ou de quem ali viveu, plantou, construiu, andou, sepultou seus ancestrais?

  1. Nota: O título do capítulo é um trecho do poema “Funeral de um lavrador”, de João Cabral de Melo Neto.

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