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Memória e ancestralidade

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TULDSJ

0. As moças na estrada

A carruagem se quebrou na estrada,
Pombagira é abusada,
ela chegou a pé.

Ponto cantado da Pombagira da Estrada

Laroyê, Exu! Exu Emojubá!
Saravá, Pombagira! Pombagira Saravá!
Salve, Ogum! Ogunhê!

Aqui expresso a gratidão aos encantados, que me conduziram pelos caminhos físicos, intelectuais e espirituais deste trabalho. Para buscar as memórias de uma casa de Ogum,1 precisamos botar o pé na estrada! Uma estrada molhada, encharcada, escorregadia. “Exu é o chão molhado onde se planta. Quando cai a água na terra, a poeira se desespera. Mas é no chão molhado que a semente brota”, disse Exu Tata Caveira, em maio de 2025, incorporado em Pai Clayton.

O carro, com três mulheres, Mãe Lia, Moça e eu, subiu as tantas ladeiras da estrada para o Assentamento Edmundo Gusmão, em Jucuruçu (BA). Saímos de Teixeira de Freitas, com tempo ensolarado, na direção de Itamaraju; na encruzilhada da BR-101, avistamos o Monte Pescoço e, lá no alto, o “Dedo de Deus”. Entramos na estrada que passa por de trás dele, rumo a Jucuruçu. Passamos pelos povoados: Alho, Nova Alegria, Pão Cuspido (que só os mapas insistem em chamar de Itamaraty).

O Dedo de Deus, visto da BR-101, em Itamaraju, na altura da encruzilhada com a estrada que vai para Jucuruçu (BA).

Foto: acervo pessoal de Rita de Cassia Padula.

Pão Cuspido, no caminho para o Assentamento Edmundo Gusmão, em Jucuruçu (BA).
Foto: acervo pessoal de Gabriela Andrade da Silva.

O chão estava encharcado, e eu, Gabriela, tentava conduzir o carro, que foi deslizando, derrapando para lá e para cá; fazia muita força, praticamente, escalando as encostas dos montes, e espirrava lama para todo lado, enquanto atravessava porteiras, cancelas, mata-burros, pequenas pontes de madeira construídas sobre riachos. Do alto da ribanceira, víamos pastos e algumas roças (plantações de mandioca, café, urucum, cana e outras culturas agrícolas), ribeirões com pequenas cascatas sobre os lajedos, taboas crescendo nos brejos. A Mata Atlântica, entretanto, já foi, quase toda, devastada pelos exploradores de madeira e criadores de gado, desde a década de setenta até então.

Estávamos com medo do carro virar, ou atolar, mas eu tinha visto nas cartas do Baralho Cigano que, apesar do caminho difícil, com muitas nuvens (nesse caso, literais: de chuva!), tudo daria certo, porque Exu estava à frente, e fui guiando, movida pela fé e pela certeza de que o chão, mesmo molhado, estava nos levando. Chegamos a ter de parar e pedir ajuda para subir uma ladeira mais íngreme e escorregadia. Seguimos viagem e eu, já suando frio, tentava controlar o carro, que serpenteava pelo lamaçal.

Ao pé da última ladeira do destino, por nós, tomado, paramos de vez. Até mesmo motoristas mais experientes, da região, disseram que não dava para subir com o chão molhado. Estacionei em frente a uma porteira, e subimos a pé, com as bagagens, até o topo, onde ficava a casinha onde Mãe Lia morava. No dia seguinte, descobri que aquela porteira, onde paramos, era a da roça que foi de sua avó e de seu avô, o lugar em que se estabeleceram quando chegaram naquelas terras. Era ali mesmo que a gente tinha que chegar…

Ladeira em frente à porteira das terras onde moraram três gerações da família de Mãe Lia.

Foto: acervo pessoal de Gabriela Andrade da Silva.

Referências

  1. Ogum é o orixá das estradas, dos caminhos, dos deslocamentos.

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