1. Plantando um terreiro
Período estimado: 1900-1920
Baiano bom, baiano bom,
baiano bom é o que sabe trabalhar.
Baiano bom sobe no coqueiro,
bebe a água desse coco
e bota o coco no lugar.
Ponto de baiano.
No início do século XX, os avós paternos de Mãe Lia, fugindo da seca dos sertões (não se sabe ao certo de quais, mas era uma região às margens do Rio São Francisco), encontraram, em meio a muitas itinerâncias dos seus destinos, assento em Jucuruçu (BA). Vieram a pé, seguindo os fios do curso das águas do Jequitinhonha, com fome e com sede, e chegaram a uma terra boa de plantar, com água perto (zona de Mata Atlântica). Ali se estabeleceram e construíram a vida.
Uma dessas famílias era a de Dona Olídia e Seu Joaquim, que vieram com seus filhos. Dentre as poucas coisas que trouxeram consigo, havia um coco. Passando fome e sede, não poderiam ter aberto aquele coco na estrada? Mas não o abriram. Plantaram o coco quando chegaram, ao lado da pequena casa, próxima do Corregozinho, que desce o monte, formando uma pequena cascata sobre um lajedão. Desse pé de coco, extraíram mais três mudas, mas, atualmente, só restou o primeiro, o ancestral, que, ainda vivo, tem cerca de 120 anos.
E esse pé de coco, plantou assim, que quando eles vieram do sertão, na fome que teve lá, teve uma fome que tinha que sair mundo afora, ou então morria. E aí, lá, eles acharam coco, e trouxeram, e plantou esse pé de coco. Dali, eles tiraram mais algumas mudas, que ali tinha quatro pés de coco. Aí eu já conhecia os quatro, mas hoje só tem uma. E plantou o café, porque aqui eles abriram a posse. Eu sei que eles eram da região das margens, ali, do Rio São Francisco. Vieram a pé. A pé… Viam a gente morrer na estrada. Via o povo, o pezinho de mandioca que tinha sobrado, o povo ali torrando a farinhazinha pra dar aos filhos pra comer. Mas aí, veio aquele tantão de gente nas estradas, não era pouca, não. Tudo com fome, também. E aí esses meninos, né, pequeno, da minha avó, vindo de lá pra cá com essa fome. Foi quando chegou aqui. E guardou esse coco, porque podia ter bebido a água ou comido na estrada, né, tanta fome. Aquele pé, então, é da mãe do meu pai. Aí, quando a gente fala que essa terra aqui é herança… fala que não, que não. Mas tá tudo certo, ué. Se não é, não é…
Mãe Lia, 21/07/2025.


Coqueiro no assentamento Edmundo Gusmão, em Jucuruçu (BA), com cerca de 120 anos, plantado pelos avós de Mãe Lia. Fotos: acervo pessoal de Gabriela Andrade da Silva, julho de 2025.
Foi ali, ao lado do pé de coco, que se estabeleceram os avós paternos de Maria D’Ajuda Soares de França, que, hoje, conhecemos como Mãe Lia. Também foi ali, bem junto ao pé de coco, que uma ancestral de Mãe Lia “enlouqueceu”, do dia para a noite. Perguntei se esse enlouquecimento era mesmo coisa da cabeça dela, ou era espiritual? Mãe Lia não hesitou: espiritual! O coqueiro guarda seus mistérios…
O chão, onde a família de Mãe Lia se assentou, floresceu e, por muito tempo, frutificou. Chegou, enfim, outro tempo de escassez, e um tio dela “vendeu a terra sem o pai saber e passou aqui num pau de arara, até não sei aonde, pra pegar o outro carro pra ir embora.” (Mãe Lia, julho de 2025). Desde então, essa terra passou por, pelo menos, mais quatro donos, até chegar nas mãos de um grande fazendeiro, proprietário de muitas terras. O Movimento dos Sem Terra (MST) ocupou-as na década de 2010, e, hoje, essa região é um assentamento, chamado Edmundo Gusmão, em Jucuruçu (BA).
O povo baiano, na umbanda, faz referência, não somente, a pessoas nascidas na Bahia, mas aos chamados “nordestinos”, que foram tão mal vistos na região Sudeste do Brasil, para onde muitas pessoas migraram, com muita frequência, fugindo da seca, da fome, da escassez. É um povo resiliente, que, mesmo diante das dificuldades da vida, consegue manter a força, a alegria, a coragem, a valentia. Muitas vezes, baianos usam coco como elemento de seus trabalhos. Mãe Lia teve legítimos “baianos” em sua ancestralidade, e eles (acreditamos que sem saber) plantaram um terreiro…
Gabriela Andrade da Silva
Outubro de 2025
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